
Se você ligar sua televisão neste exato momento provavelmente encontrará algum canal de televisão noticiando a tragédia de Eloá, que foi sequestrada e depois morta pelo ex-namorado. Não que eu esteja desmerecendo o acontecido ou fazendo pouco do sofrimento da família, mas a cobertura que é dada a esse tipo de fato pra mim chega a representar um culto a tragédia. Nem a eleição contou com tantos destaques! Houve emissoras que fizeram cobertura ao vivo do sequestro, e em todo jornal eram duas, três, quatro reportagens que iam desde o perfil psicológico do assassino ao cotidiano do prédio no qual Eloá morava.
Caso resolva puxar um pouco pela memória poderá lembrar que não faz muito tempo em que o mesmo aconteceu com o caso de Isabella Nardoni, onde as pessoas direcionaram tanto foco para o caso que quase asfixiaram a mãe da garota (que estava viva!). Pessoas se amontoavam em frente a sua casa, repórteres a perseguiam durante todo o tempo. E lembro de ter visto um pedido de Ana Carolina (mãe da garota), dizendo que ela estava sensibilizada pela comoção das pessoas (só pra não ser grossa…) mas que por favor a deixasse em paz!
Diante desses fatos fico pensando por que as pessoas possuem tanto apreço pela tragédia? Será que a felicidade alheia incomoda ou somos tão solidários ao ponto de nos comprometer e cercear o outro com a nossa pseudo-ajuda? Tendo em vista a incapacidade de interferência positiva no sequestro por parte daqueles milhões de telespectadores que assistiam ao “Big Brother” de Eloá, me questiono a utilidade de tal cobertura. Penso em tantas pessoas que se desmancham em prantos pela vítima enquanto estão sentadas em seu sofá, mas ao desligar seus televisores não conseguem produzir ao menos uma boa ação para aqueles que fazem parte do seu cotidiano.
Se o verdadeiro motivo por traz de tamanho apego é termos real preocupação com o próximo, então por que não realizar ações que contemplem aqueles que fazem uso da denominação de próximo em seus diversos sentidos (nossos parentes, amigos, colegas de trabalho, aquele que está sentado ao seu lado… mais próximo que isso, impossível.)?
Nesse contexto, abro um parêntese para correlacionar o comportamento daquelas que pessoas que estão sempre tentando fazer-se de vítima para diminuir a própria responsabilidade sobre suas vidas. É hilário quando você encontra duas pessoas se digladiando pra ver quem teve um dia pior, ou teve menos sorte, ou tem um trabalho mais difícil… ou whatever! Não obstante, melhor do que sair ganhando nessa discussãozinha de vítima do dia/semana/mês/ano, é quando se encontra alguém que indiscutivelmente está numa situação pior que a sua. Isto lhe faz parecer bem superior!
Você pode até achar que estou exagerando na correlação dos fatos e que brasileiro é um povo bom por natureza. Quanto a isso não discuto, acho que somos bastante afáveis. Pra tirar a prova, basta começar a chorar no meio da rua, que irá conseguir desde afagos vigorosos a vultosas somas em dinheiro (só não vá fazer disso meio de vida…). Mas se nosso senso de “irmandade” só aflora em situação extrema, será ele uma característica tão intrínseca assim? Perdoem a minha descrença, mas certas vezes, tenho a impressão que o apreço que as pessoas têm por outro que esteja em situação pior, não é pela ajuda a ser prestada…
Quero acreditar que os argumentos do texto não representam à regra e sim a exceção. E que a quantidade de pessoas que necessitam diminuir o próximo para se sentirem maiores são minoria; pois todos devem ter a ciência que temos a mesma capacidade, mas este já o assunto de outro post…
jovem kennedy!
sinto lhe informar mas acredito que isso seria a regra sim. Essa necessidade não pertence apenas aos brasileiros, somos sim muitas vezes preocupados com o próximo, mas estagnamos mais em desfavores, como vc mesmo disse, do que em favores reais. A capacidade de admirar a tragédia é humana e está cravada em nosso âmago.